Trabalhar com o registro em vídeo dessa performance e realizar leituras coletivas do trabalho da Chag Chi Chai, foi sem dúvida uma das melhores experiências que já tive como arte/educador. Impressionante como é potente este trabalho, como questões contemporâneas emergem e são interpretadas por crianças e adolescentes ainda formando seus conceitos sobre arte. Em meio a tanta charlatanice atual, quando o trabalho contemporâneo realmente é bom, até as crianças o compreendem e estabelem relações com a vida que arde lá fora.
"Samantha com camisa azul", 2007, acrílica s/ tela;
"Samantha e James no jantar com convidados", 2008, acrílica s/ tela;
"James e Samantha na cozinha", 2008, acrílica s/ tela;
"Samantha descendo uma escada", 2008, acrílica s/ tela;
"Samantha com blusa vermelha", 2007, acrílica s/ tela;
O instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, está com uma grande mostra retrospectiva da produção de Sérgio Romagnolo incluindo desenhos, pinturas, esculturas e vídeos produzidos desde os anos 80 até a atualidade, em homenagem aos seus trinta anos de atividade artística. No último sábado o artista recebeu alunos de mestrado e público interessado numa visita orientada pelo próprio artista junto à mostra, onde falou sobre sua carreira, seu processo criativo, suas fases produtivas e respondeu perguntas sobre peculiaridades de sua obra. Impressiona a vasta capacidade produtiva do artista desde sua experiência como aluno na universidade até os dias de hoje, quando também atua como pesquisador e professor universitário, sempre reinventando e redirecionando seu fazer poético permeado de questões que envolvem ou envolveram o imaginário cotidiano popular, como produtos de consumo, objetos banais e imagens da grande mídia por exemplo, como mais recentemente as pinturas de frames sobrepostos do antigo seriado da tv com a personagem Samantha, ou ainda as pinturas de super-heróis urbanos nos anos 80. Notáveis também suas séries tridimensionais de plástico colorido e ocas, que vão desde pilha de tijolos até fuscas em tamanho natural (tanto um em pé como outro de ponta-cabeça!). O descartável e artificialíssimo universo pop propulsiona seu trabalho mas sempre com uma boa dose de ironia escondida nas obras - Andy Warholl é pai - que somente os mais curiosos podem notar. Ou será que uma chamativa escultura plástica e oca, uma pintura gestual de frames fugazes e vídeos de embalagens de sucrilhos que aparecem abstratos de tanto se movimentarem na tela não querem nos dizer nada mais?
Trabalho do grupo Chelpa Ferro, criado especialmente para o Projeto Octógono Arte Contemporânea da Pinacoteca de São Paulo. Nesta instalação, o grupo, formado por Barrão, Luiz Zerbini e Sergio Mekler, apresenta uma programação musical em grandes caixas de som que sobem e descem, num movimento contínuo, durante horas, provocando audições diferenciadas em cada patamar. Totoro é um termo oriundo do folclore e diz respeito a um certo espírito protetor que ronda a copa de árvores gigantescas em florestas fechadas, produzindo sonoridades e exalando um odor de cânfora ao redor.
Nada melhor que um registro audiovisual para se ter uma noção mais próxima do que realmente é a obra. Apesar de tudo, ratifico que em arte o contato vivo é primordial, seja uma pintura, seja uma instalação, seja uma outra proposição.
Mais sobre o artista chinês no site http://www.galeriebertin.fr
E refletindo sobre a China, o comunismo e a invisibilidade, impossível não refletir também sobre essa euforiazinha vermelha que anda ressuscitando por aí. Não é porque o capitalismo supostamente estaria entrando numa crise que o comunismo seria nossa melhor alternativa, não é mesmo? Ideologias nefastas por ideologias nefastas, a impressão é que vivemos num mundo cada vez mais a-utópico e desesperado, desesperançado mesmo, daí ainda a grande importância e pertinência das artes nos dias de hoje. E como já disse Susan Sontag, uma das maiores intelectuais do século XX, o comunismo nada mais é que um "fascismo com um rosto mais humanizado". Temos que aprender a jogar fora ideologias enlatadas e vencidas, talvez tenham sido importantes em determinados momentos tentando apontar outras direções, mas nada é para sempre. Creio que nós mesmos é que temos que reinventar nossa melhor maneira de habitar o mundo no século XXI, talvez menos "ready-made" e mais "personalizado", sem preguiça de usarmos a criatividade, inventarmos, pensarmos com as próprias idéias e vivermos da melhor forma possível.
Desculpem a longa ausência de posts, mas tentar reinventar a própria vida dá trabalho!
Curioso como nesse trabalho da Rivane Neunschwander podemos notar um flerte ou uma sutil influência daquele espírito do movimento dadá. Aliás, o movimento dadá é uma base influente para uma boa parcela dos artistas contemporâneos, seja de forma mais direta ou indireta, é considerado um dos primeiros embreantes do que viria a ser nossa diversificada arte contemporânea. Surgido na segunda década do século passado, o movimento dadá abarcava uma série de manifestações expressivas, não só por artistas plásticos, mas também por escritores, músicos, atores, entre outros profissionais e pessoas comuns, tanto individualmente como em grupo. Prezavam a subjetividade, a não-linearidade, a irracionalidade, o questionamento e a invenção. A mola propulsora do movimento dadá foi o contexto social da época: 1ª Guerra Mundial e sua ideologia envolvente de racionalismo e progresso. Multidões de mortos e desabrigados, desespero, fome e atrocidades do tipo assolavam a Europa no raiar do século. Se progresso era aquilo, preferiam o inverso. No lugar da objetividade destrutiva, propuseram uma subjetividade construtiva, ao invés de um cego progresso mortífero, uma pausa vital. Queriam mesmo é soprar a poeira da falsa moral burguesa assentada sobre os europeus, incluindo aí o restrito cirquito da arte. Até o próprio nome do movimento foi retirado de um dicionário ao acaso, abrindo-se uma página e apontando uma palavra qualquer. Além do significado original - cavalo de brinquedo, perceberam também que DADÁ poderia representar muito bem os ideais do movimento em virtude da proximidade com a sonoridade subjetiva murmurada por bebês, nome melhor impossível.
Muitas vezes esse movimento é bem difícil de ser compreendido no presente, mas não mais que no passado, quando de fato questionava ou chocava as pessoas de forma mais potente que na atualidade em virtude do conservadorismo vigente. Não podemos dizer que exista um estilo ou técnica dadá a ser utilizada hoje em dia, até mesmo porque foi algo muito diversificado e pontual naquelas circunstâncias. Escritores que prezavam o livre fluxo de pensamento, artistas que exploravam a aleatoriedade e a apropriação de objetos, atores que criavam performances inusitadas, músicos que se libertavam das partituras, isso sem dizer nas manifestações interdisciplinares, nas ações coletivas em locais públicos, pura vanguarda que modificaria totalmente o modo de compreendermos e lidarmos com as manifestações artísticas à partir de então. As improvisações no jazz e a música experimental, escritores marginais e alternativos, propostas cênicas inovadoras, apropriação de objetos prontos na construção de obras de arte, a importância da idéia e do contexto de fundação, entre várias outras coisas, podem ser consideradas frutos e desdobramentos do movimento dadá iniciado no começo do século passado. Creio que a ampla liberdade de criação é a principal herança deixada pelo movimento aos dias de hoje, com muitas possibilidades abertas a exploração pelas inquietações poéticas dos artistas, cada um à sua maneira, como no caso da brasileira Rivane Neuenschwander, que trabalha com variados meios, linguagens e procedimentos, neste vídeo específico explorando uma relação entre visualidade, linguagem verbal, temporalidade e subjetividade, com a sutileza que marca seu fazer criativo, embaralhando significados e nos oferecendo um deleite à reflexão poética.
Mais informações sobre a artista podem ser encontradas no site da galeria que a representa no Brasil: www.fortesvilaca.com.br
Pode-se dizer que Jenny Holzer é uma artista que instiga as pessoas para reflexão utilizando o pensamento aliado às palavras, estimulando nossa percepção e praticando experiências de linguagem. Foi uma "quase" dona de casa americana que resolveu tornar-se artista em meados dos anos 70, espalhando cartazes com coisas e questões que a afligiam pelas ruas da cidade. Logo depois, foi experimentando outros meios e suportes para a disseminação de suas idéias, usando mecanismos de comunicação visual de massa: cartazes out-door, veículos de transporte, projeções de laser, painéis eletrônicos em avenidas, estádios esportivos, instituições, entre outros. Ainda no início de carreira foi relacionada com o movimento feminista, mas acima de tudo foi e é uma grande artista de veia conceitual, que apoia-se na força da idéia em detrimento do visual, no fluxo em vez do estático, no contexto em lugar da autonomia. Seu trabalho é um convite ao pensamento e só existe de fato quando lido e interpretado, senão diretamente, talvez imaginando passear por uma rua ou lugar qualquer e dar de cara com alguma dessas frases em tamanho garrafal, maior que nosso próprio corpo, do tamanho dos anúncios publicitários que muito estimulam nossas ações impulsivas e bem pouco nosso pensamento.
Abaixo, algumas das célebres frases disseminadas por Jenny Holzer.
"SÓ AQUILO QUE VOCÊ PERCEBE EXISTE"
"PROTEJA-ME DO QUE EU QUERO"
"VOCÊ DEVE AO MUNDO E NÃO O CONTRÁRIO"
"A REVOLUÇÃO COMEÇA COM MUDANÇAS NO INDIVÍDUO"
"O DESEJO DE REPRODUZIR É UM ANSEIO DE MORTE"
"VOCÊ É O PASSADO, PRESENTE E FUTURO"
"A ABSTRAÇÃO É UM TIPO DE DECADÊNCIA"
"TENTAR PARAR O TEMPO É UM ATO DE HEROÍSMO"
"UM POUCO DE SABEDORIA VAI LONGE"
"TOMAR UM PARTIDO DEFINIDO DÁ PUBLICIDADE AO LADO OPOSTO"
"CRIE MENINOS E MENINAS DO MESMO JEITO"
"ÀS VEZES É PREFERÍVEL A INATIVIDADE AO FUNCIONAMENTO AUTOMÁTICO "
Imagens:
Jenny Holzer
Trabalhos variados, meios variados, datas e locais variados.
Mais em: www.jennyholzer.com
Documentário sobre Jenny Holzer no Brasil (3 partes):